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Futebol

08/12/2018 ás 07h30

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Daiane Lima

Bom Jesus do Sul / PR

Claudinei avalia 2018, passagem por rebaixados e diz que permanência da Chape "salvou ano"
Técnico relembra início de temporada no Avaí, dificuldades no Sport, retribuição no Paraná e reencontro com o sucesso no Verdão
Claudinei avalia 2018, passagem por rebaixados e diz que permanência da Chape
Claudinei Oliveira durante passeio pela cidade de Chapecó — Foto: Eduardo Florão

Claudinei Oliveira atravessa a rua pela faixa de pedestres, na principal avenida de Chapecó, bem diante do monumento conhecido por "Desbravador". Ouve um chamado, olha para trás, e um senhor, aparentando ter entre 40 e 50 anos acena, dá parabéns e finaliza com um “tamojunto”. Três minutos antes, indo na direção oposta, um outro transeunte, um pouco mais jovem que o do carro, também fez questão de falar com o técnico.


O motivo das paradas, que não limitam-se aos cumprimentos, mas também olhares e sorrisos, é que ali está um dos principais responsáveis pela manutenção da Chapecoense na Série A do Campeonato Brasileiro. Em um clube que é o centro das atenções na cidade de pouco mais de 200 mil habitantes, não é raro a formação de personagens conhecidos.


- O pessoal agradece pelo trabalho, dá um abraço, cumprimenta... Não fica muito tempo. Falam que estavam lá e que foi inesquecível. E, de fato, talvez o futebol não tenha sido brilhante, mas pela festa que proporcionaram, parecia que tinham ganho a Copa do Mundo, todos estavam comemorando - relatou o comandante do Verdão.


Dois dias depois de vibrar com a manutenção da equipe na elite, Claudinei Oliveira recebeu o GloboEsporte.com no hotel que virou sua residência nos últimos meses do ano. Com a camisa do clube, bermuda e chinelos de dedo, o treinador dava indícios de simplicidade e humildade, características que encaixaram bem com a Chape e a cidade. Longe da família, que permaneceu em Florianópolis, foi acolhido - e muito bem - no Oeste de Santa Catarina.


- Procuro conversar com todos que se aproximam. Aqui é diferente. Trabalhei em outras cidades que tem mais de um time, aqui é muito mais visível. Todo mundo é Chapecoense. Mesmo quem é de outra cidade adota a Chapecoense, porque pode pegar o filho pela mão e ir ao estádio. Um estádio onde você fica próximo é gostoso de assistir. Como treinador está sendo especial e um aprendizado.


Por cerca de uma hora, Claudinei conversou sobre o objetivo atingido na Chapecoense, fez uma avaliação do ano após comandar quatro clubes, falou do temor pela chance de participar de mais um rebaixamento e elencou os pontos importantes para a reação do time catarinense. Confira:


Como você está depois de atingir o objetivo?


- Vamos voltando ao normal aos poucos. É uma sensação boa depois do jogo, você pensa como foi o ano, pensa no futuro. O mais importante foi ter cumprido o objetivo inicial e a forma como foi, o jogo em casa, uma decisão, dependendo só de nós, com torcida batendo recorde. No dia seguinte todos estavam com a camisa da Chape e me cumprimentando.


Depois do jogo você estava bastante agitado aguardando a coletiva. O que estava passando na cabeça naquele momento?


- É um liquidificador de sentimentos. Fico pilhado. Estava saindo do campo e vi que os jogadores ficaram, então voltei para agradecer. Não sou esse tipo de treinador que pula alambrado e coloca a cabeça do mascote, não é meu perfil, acho que a festa é dos jogadores. Fui no vestiário e dei com a porta na cara, não tinha ninguém lá. Voltei para dar um abraço neles. Queria fazer logo a coletiva para curtir a família, mas daí dei um beijo na esposa, falei com o filho mais velho e o mais novo estava no campo batendo bola. Em uma arena de Copa do Mundo os caras não iam deixar, mas aqui tem liberdade, até criam vínculo com o clube. Fui lá dar um abraço no Rafael, que é o mais novo, aí fala com um, fala com outro. A gente fica pilhado. Eu já falo rápido, então começo a falar mais rápido ainda.


Qual foi o momento de virada e que fez a Chapecoense reagir?


- Um conjunto de fatores. Cheguei e mantive o que vinha sendo feito, até por não ter muito tempo. Uma semana antes tinha falado da situação do Wellington (Paulista, atacante), falei com pessoas do clube mesmo sem conhecer. Eu sou assim, falo com todo mundo. Em BH falei com o presidente e com o André se a situação do Wellington era tão grande que não poderia reverter, eles falaram que daria. Pedi para avisar antes do jogo contra o Cruzeiro que íamos falar com ele na segunda, porque não queria que achasse que se perdessemos o jogo íamos atrás dele ou se ganhassemos não precisávamos mais. Achava importante ele saber que contávamos com ele. Quando os jogadores foram aquecer o presidente ligou para ele. Falei para o Wellington que nunca gostei de enfrentar ele, é competitivo, briga, reclama com a arbitragem. Falei: "Quero aquele Wellington Paulista em campo. Não que vai ser titular ou reserva, mas vai brigar por seu espaço. Mais do que compromisso comigo, tem com os companheiros que não desistiram de você". Contra o América-MG foi um sinal que as coisas dariam certo. Se fosse escrever um roteiro que ia colocar o cara e ia fazer gol... pois ele entrou, fez o gol e ganhamos o jogo.


E o jogo contra o Sport?


- Tivemos pouco tempo para nos preparar e tinha que ter uma novidade. O time estava previsível. Arrisquei. Não sou fã do losango, porque expõe muito se o time tiver laterais bons. Arriscamos porque queríamos o Diego (Torres). Queria que o time cuidasse mais da bola. Deu certo, pois os jogadores se comprometeram. Mantivemos contra o São Paulo e vencemos com mais dificuldade, porque começam a estudar a gente.


A reta final


Sou um cara de diálogo, eu gosto de conversar. Falei para eles que eram nove jogos, que não daria para agradar todo mundo, mas que todos iriam treinar. Falei: "Esperem a oportunidade". Todos entenderam os conceitos. Se você falar a verdade para o atleta ele vem junto, e os mais dispersos o elenco mesmo puxa. O Fabrício Bruno falou comigo, disse que tinha ido bem no ano anterior. Respondi que tinha boas informações e que era para ele trabalhar. Daqui a pouco o Thyere foi amarrar a chuteira e travou as costas, então o Fabrício foi jogar e ficou até o fim do campeonato. Contra o Sport os funcionários mandaram vídeo para os jogadores na beira do campo. Os jogadores viram e perceberam quantas famílias dependiam deles também. O Sport foi a grande arrancada, com rendimento e resultado.


Qual foi a parte mais difícil?


- O mais difícil é chegar em um local sem conhecer muito bem as pessoas. Chegamos tendo que trocar a roda com o carro andando. Você usa a experiência de outros momentos, é muita conversa, muita conversa. Tem que estar próximo dos atletas, ter humildade de não chegar e querer mudar tudo, falar que estava tudo errado. Contra o Cruzeiro colocamos os jogadores que tinham sido titulares com o Guto. Se estavam de titulares, alguma coisa boa estavam fazendo. Depois fomos colocando a mão aos pouquinhos. O futebol tem muita vaidade, mas eu não tenho. Não precisa ser do meu jeito, tem que ser o melhor para todos. Eles sentem também quando quem comanda joga a responsabilidade para eles. Nunca faltou luta, eu sempre falei isso. Hoje, a informação corre rápido. A semente que você planta onde passa, se espalha. Quando me anunciam treinador, o jogador pega telefone, liga para um amigo e pede informações.


Foi um ano difícil para você? Foram quatro clubes...


- No futebol brasileiro dão uma importância grande para o estadual. No Avaí, lançamos o Guga e o Getúlio. Fomos moldando a equipe, mas o foco era Copa do Brasil e Brasileiro. Fomos levando, eliminamos o Fluminense (na Copa do Brasil). No estadual abrimos mão, rodamos o elenco, acabamos em 6º, mas aí veio a pressão por causa disso. Fizemos dois jogos contra o Goiás e tínhamos estreado na Série B, depois colocamos time misto contra o Vila. O presidente (Francisco Battistotti) veio falar comigo e disse que a pressão estava grande. Falei para ficar tranquilo e saí amigavelmente.


De Floripa a Recife


- Uma semana depois me ligaram do Sport, o time encaixou rapidamente, estava jogando bem, ganhamos do Palmeiras na Arena. Aí perdemos o Anselmo. Na parada da Copa ficamos em sétimo lugar, deu uma tranquilizada no clube. Falamos que precisávamos de mais um volante, mas tinha uma dificuldade financeira e o time estava bem colocado. Voltamos e começamos a ter dificuldades. Saí do Sport com 39,6%, isso dá 45 pontos, que dá Sul-Americana. Só que o resultado foi muito bom no começo e muito ruim no final. Saí do Sport e fui para casa. Eu queria descansar um pouco, tinha pedido para sair.


Terceira parada: Paraná


- Quando estou em São Paulo o Rodrigo Pastana me liga. Ele falou que o Micale tinha pedido para sair. O presidente me ligou também. Sou muito grato às pessoas que me ajudam. Em 2016, o presidente abriu as portas e me recolocou no mercado. Achei que tinha que dar minha contribuição. Estava com uma situação tranquila, ia permanecer no Paraná no ano seguinte. Aí teve a Chape e me tira da zona de conforto. Arriscar participar de três rebaixamentos é o que todos iam falar. Sempre tive vontade de trabalhar aqui. Até falaram que eu era corajoso. Vim de peito aberto. Poderia até ser motivo de chacota se caísse. A permanência, vamos dizer, que salvou meu ano. A Chape e meu ano. Até a sequência de carreira poderia ser complicada, de cair dois anos seguidos. A contrapartida é que ninguém fala que o Roger Machado foi campeão, dizem que o campeão foi o Felipão, mas quem começou o trabalho? A cultura é de procurar mais a coisa negativa.


O Paraná era considerado um dos rebaixados. Se arrepende de ter ido para lá? 


- Eu não me arrependo porque fui com boa intenção, não pela parte financeira. Quando ganhamos do Santos a primeira mensagem que tinha era do presidente do Paraná dando os parabéns. Fui para lá e achei que podia fazer, tinha um turno em jogo. Sempre confio no meu trabalho, que vou conseguir. Se eu soubesse o resultado final, que não ia conseguir, seria fácil. Mesma coisa da Chape, se falassem vai lá que daqui nove jogos você vai estar livre, acertava na hora. Não fui (para o Paraná) por medo de ficar desempregado, sabia que viriam propostas, não foi por questão financeira, pois ganhava menos que no Sport, mas foi por isso, pelas pessoas que foram corretas comigo. Sempre que eu puder ajudar, vou ajudar. Fui confiante de que poderia fazer, como aqui na Chape. Não sou arrogante e prepotente, mas confio no que faço.


Uma vez presenciei uma torcedora te perguntar quem era maior, Chapecoense ou Avaí. Naquele dia você se esquivou e disse que a Chape estava na A. Ano que vem os dois vão estar, como é viver a rivalidade do outro lado?


- Tranquilo isso, mais ligação do que tenho com o Santos, impossível. Fiquei lá oito anos, joguei, era torcedor quando criança, fui mascote. Ninguém ficou mais feliz que eu de ter ganho aquele jogo deles com a Chapecoense. Por falar nisso, quero agradecer também o jogo que o Santos fez contra o Sport, quero agradecer o Cuca. Havia dado folga ao Vanderlei, colocou o Vladimir e ele machucou o ombro um pouco antes da viagem. Tem o Djou e o João Paulo que são bons goleiros, mas o Cuca, até pela necessidade do campeonato e por ter jogado na Chapecoense, chamou o Vanderlei direto de Coritiba. Profissionalismo e consideração pelo profissional que está do outro lado. O Santos não ganhou o jogo, mas jogou de maneira muito digna. Tem que dar os parabéns ao Cuca e aos atletas do Santos pelo que jogaram lá. São em atitudes assim que a gente vê que tem muita gente séria no futebol. Até peço que você registre isso, porque não podemos só falar coisas negativas do futebol. Sobre o Avaí, uma torcedora me perguntou quem era o maior, falei que era a Chape porque estava na Série A. Ano que vem quem acabar na frente na Série A vai ser o maior do estado. É uma briga constante. Estamos discutindo por uma coisa boa de quem é o melhor do estado e não quem é o pior.


 

FONTE: GE

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