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Confrontos na Bolívia deixam 23 mortos em quase um mês de protestos, diz comissão de Direitos Humanos

Entidade também denunciou decreto do governo interino de Jeanine Áñez que autoriza participação das Forças Armadas em repressão a manifestações e as isenta de responsabilidades criminais. Ex-presidente Evo Morales chamou decreto de 'carta branca para massacrar o povo'.

18/11/2019 07h46
Por: Daiane Lima
Fonte: G1
Polícia tenta destruir barricada em Sacaba, perto de Cochabamba, na Bolívia, na sexta (15) — Foto: Danilo Balderrama/Reuters
Polícia tenta destruir barricada em Sacaba, perto de Cochabamba, na Bolívia, na sexta (15) — Foto: Danilo Balderrama/Reuters

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) afirmou que já são "pelo menos" 23 mortos e 715 pessoas feridas desde o início das manifestações na Bolívia, que já ocorrem há quase um mês no país, de acordo com o último levantamento da entidade, que foi divulgado em uma rede social no sábado (16).

A comissão também denunciou como "grave" um decreto do governo interino de Jeanine Áñez que autoriza a participação das Forças Armadas na conservação da ordem pública e isenta-as de responsabilidades criminais.

Segundo o ex-presidente Evo Morales, que renunciou ao cargo e buscou asilo no México, o decreto é "uma carta branca de impunidade para massacrar o povo".

No Decreto 4078, aprovado na quinta-feira (14), de acordo com a France Presse, o governo provisório autoriza a participação militar na restauração da ordem pública e isenta as forças militares da responsabilidade criminal.

"O grave decreto da Bolívia ignora os padrões internacionais de direitos humanos e, por seu estilo, estimula a repressão violenta", disse a CIDH em uma série de tweets.

Apenas na sexta-feira, a CIDH registrou nove mortes após um confronto entre apoiadores do ex-presidente e as forças policiais em Cochabamba.

A nação andina entrou em crise após a eleição presidencial de 20 de outubro. Na semana passada, Evo Morales anunciou novas eleições no país depois que a Organização dos Estados Americanos (OEA) revelou ter encontrado diversas irregularidades no pleito realizado no mês passado onde ele havia sido reeleito para um quarto mandato.

No entanto, pouco depois, por sugestões da polícia e das Forças Armadas, Morales renunciou à presidência depois de quase 14 anos no poder.

O ex-presidente boliviano agora está no México após aceitar o asilo oferecido pelo governo do país.

Evo diz temer guerra civil

O ex-presidente da Bolívia Evo Morales disse no domingo (17) à agência de notícias EFE que teme que possa acontecer uma guerra civil no país e pediu que seus compatriotas terminem imediatamente os confrontos.

"Eu tenho muito medo. Em nosso governo, unimos o campo e a cidade, leste e oeste, profissionais e não profissionais. Agora grupos violentos estão chegando", alertou Morales, quando questionado sobre o risco de uma guerra civil na Bolívia.

Crise de abastecimento

Bolivianos enfrentaram longas filas nas ruas de La Paz neste domingo (17) em busca de frango, ovos e combustível para cozinhar, enquanto apoiadores do presidente deposto Evo Morales continuam bloqueando estradas do país, isolando centros populacionais de fazendas em terras mais baixas.

Autoridades disseram à agência de notícias Reuters que um avião militar Hercules aterrissou na capital La Paz, no sábado, cheio de produtos de carne, contornando as barricadas nas estradas nas saídas da cidade.

O ministro da Presidência, Jerjes Justiniano, disse a repórteres que o governo estabeleceu uma “ponte aérea” para La Paz. Disse que autoridades esperam fazer o mesmo com outras grandes cidades bolivianas que foram isoladas de suprimentos.

Apoiadores de Morales foram às ruas pouco depois, alguns armados com bazucas caseiras, pistolas e granadas, bloqueando ruas e entrando em conflito com forças de segurança.

Enquanto a violência piorava, muitos nas regiões mais pobres de La Paz passaram a cozinhar com lenha, e formaram longas filas por gás liquefeito, latas e pouca comida.

“Espero que as coisas se acalmem”, disse Josué Pillco, funcionário da construção civil em um bairro operário de La Paz. “Não temos comida ou combustível”.

 

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